estava escrevendo um negócio aqui e me escapuliu um "quem vê cara não tem coração", que me parece um chavão ainda superior, trazendo dentro dele o significado da versão original e expondo uma suposta superficialidade da pessoa que apenas viu a cara - cabe a ela refletir sobre essa suposta falha e talvez sair da situação toda como alguém melhor. há ainda uma conotação hedonista, para usos lúdicos - "amiga, esquece o robson, acabou, não volta mais. hoje a gente vai sair, encher a cara, chamei o rapaz do jurídico, ele é uma gracinha. você precisa de uma coisa leve e quem (só) vê cara não tem (o) coração (envolvido)". enfim, fica como sugestão.
não vejo muita movimentação por esses lados neste novo ano, mas vai saber, né? fica pra semana.
um excelente 2012 para todos os amigos. pra cima deles, sempre, tal qual o denílson contra a turquia na copa de 2002 - e se tiver difícil, lembra do rivaldo, que comandou a família felipão rumo ao penta e hoje em dia tá defendendo uma grana em angola. não tá fácil pra ninguém, mas cabeça alta.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
sexta-feira, 10 de junho de 2011
big heads and soft bodies make for lousy lovers
“Boys and girls in America have such a sad time together; sophistication demands that they submit to sex immediately without proper preliminary talk. Not courting talk - real straight talk about souls, for life is holy and every moment is precious.”
craig finn disse que tinha essa frase colada em uma parede de seu apartamento enquanto escrevia as letras de "boys and girls in america", terceiro disco do hold steady (que eu buscaria ouvir, se fosse você). deve ser verdade, porque o rapaz incorporou um pedaço da frase no primeiro verso do álbum, em uma das melhores músicas que já ouvi - uma sucessão de frases espertas que decerto adornaram diversos perfis de redes sociais em 2006 e 2007. chamaram até a minha atenção, eu que não costumo me importar muito com o que o vocalista diz. fora o riff. samba de primeira, mesmo.
engraçado que uma frase tão forte passou desapercebida na minha leitura do "on the road", talvez pela tradução incompetente que parece ser costumeira nos pocket books da l&pm (todo mundo reclama), talvez pela minha dificuldade em manter o devido nível de concentração e interesse no decorrer da obra, que me pareceu longa demais, datada demais, sem foco - aqui entra a gostosa e condescendente risada do leitor, entretido pela tentativa bonitinha desse neófito de criticar um clássico. não lembro quase nada do livro, que terminei não sei muito bem por que. respeito pelo CÂNONE LITERÁRIO DO OCIDENTE, imagino.
vejo os barbudinhos que folheiam os clássicos beat hoje em dia e não me vem a impressão de um grupo dos mais sexualmente ativos. enquanto lêem kerouac lamentando a ausência de mimimi na vida da juventude, que parece não ter tempo para qualquer atividade que não seja foder, imagino que sejam acometidos por pensamentos muito bem sintetizados aqui: "o mundo é um grande filme pornô que só passa na casa dos outros".
taí uma frase foda. alguém deveria basear um disco nela.
craig finn disse que tinha essa frase colada em uma parede de seu apartamento enquanto escrevia as letras de "boys and girls in america", terceiro disco do hold steady (que eu buscaria ouvir, se fosse você). deve ser verdade, porque o rapaz incorporou um pedaço da frase no primeiro verso do álbum, em uma das melhores músicas que já ouvi - uma sucessão de frases espertas que decerto adornaram diversos perfis de redes sociais em 2006 e 2007. chamaram até a minha atenção, eu que não costumo me importar muito com o que o vocalista diz. fora o riff. samba de primeira, mesmo.
engraçado que uma frase tão forte passou desapercebida na minha leitura do "on the road", talvez pela tradução incompetente que parece ser costumeira nos pocket books da l&pm (todo mundo reclama), talvez pela minha dificuldade em manter o devido nível de concentração e interesse no decorrer da obra, que me pareceu longa demais, datada demais, sem foco - aqui entra a gostosa e condescendente risada do leitor, entretido pela tentativa bonitinha desse neófito de criticar um clássico. não lembro quase nada do livro, que terminei não sei muito bem por que. respeito pelo CÂNONE LITERÁRIO DO OCIDENTE, imagino.
vejo os barbudinhos que folheiam os clássicos beat hoje em dia e não me vem a impressão de um grupo dos mais sexualmente ativos. enquanto lêem kerouac lamentando a ausência de mimimi na vida da juventude, que parece não ter tempo para qualquer atividade que não seja foder, imagino que sejam acometidos por pensamentos muito bem sintetizados aqui: "o mundo é um grande filme pornô que só passa na casa dos outros".
taí uma frase foda. alguém deveria basear um disco nela.
terça-feira, 19 de abril de 2011
canta, sabiá
-...pois um dia eu cheguei em casa lá pras oito da noite, depois de jogar bola com o pessoal da rua. eu era ruim de bola, mas amigo de todo mundo, aí me deixavam jogar, e eu tinha metido um gol, talvez o primeiro do ano - era março de 90, se não me engano. foi a maior festa, cheguei em casa feliz pra caralho e entrei assobiando "flores", minha música preferida na época, meu irmão ouvia o "õ blesq blom" o tempo todo e eu adorava. meu pai olha pra mim e eu assobiando, todo sujo, suado, acho que com a camisa rasgada. ele estava puto com alguma coisa, tinha a ver com a poupança da família, já tinha bebido uns goles, ele costumava beber quando nervoso. esboçei um cumprimento e tomei de volta uma saraivada de palavrões e reclamações sobre como eu era um irresponsável, não fazia nada, não ajudava ninguém, ainda chegava em casa todo maltrapilho, não respeitava o trabalho da minha mãe em casa. eu tinha doze anos, porra. não respondi, sabia como meu pai ficava depois de beber. saí assobiando - a mesma música, eu acho. talvez "miséria".
rapaz, ele ficou possesso. nunca tinha visto ele daquele jeito. tirou o cinto e correu atrás de mim - só notei quando não podia fazer mais nada. me agarrou com a mão esquerda e com a direita segurava o cinto pela ponta de couro: o outro lado, a que tinha a fivelona de metal, ele deitou nas minhas costas umas cinco vezes. na última, a hastezinha que se enfia nos buracos entrou no meu lombo e deixou essa beleza de cicatriz ao sair, olha só. não lembro de dor igual na infância, meu pai quase não me batia, só pra dar uns sustinhos de vez em quando. no outro dia ele pediu desculpas, chorou, foi foda; meu pai era um homem bom, foi um pai muito bom. mas te digo uma coisa: fiquei uns vinte anos sem assobiar. haha. voltei tipo ano passado!
ouvi essa história na frente dos mictórios; foi iniciada enquanto ainda retirávamos nossos pênis e terminou bem depois da finalização do trabalho que estávamos ali para realizar. fiz um comentário simpático genérico - algo como "foda, hein?" - enquanto me lembrava das tardes em que estive próximo de emular as tentativas de suicídio de didi mocó na minha estação de trabalho por não aguentar mais ouvi-lo assobiando a mesma música por quatro horas. coisas tipo, sei lá, "no more 'i love you's", "have you ever seen the rain?", "fixação". só pérola.
saí do banheiro um pouco chateado com a incompetência do paizão (se é pra traumatizar, que faça direito), mas com boas idéias para a criação do rebento que planejo nunca ter.
rapaz, ele ficou possesso. nunca tinha visto ele daquele jeito. tirou o cinto e correu atrás de mim - só notei quando não podia fazer mais nada. me agarrou com a mão esquerda e com a direita segurava o cinto pela ponta de couro: o outro lado, a que tinha a fivelona de metal, ele deitou nas minhas costas umas cinco vezes. na última, a hastezinha que se enfia nos buracos entrou no meu lombo e deixou essa beleza de cicatriz ao sair, olha só. não lembro de dor igual na infância, meu pai quase não me batia, só pra dar uns sustinhos de vez em quando. no outro dia ele pediu desculpas, chorou, foi foda; meu pai era um homem bom, foi um pai muito bom. mas te digo uma coisa: fiquei uns vinte anos sem assobiar. haha. voltei tipo ano passado!
ouvi essa história na frente dos mictórios; foi iniciada enquanto ainda retirávamos nossos pênis e terminou bem depois da finalização do trabalho que estávamos ali para realizar. fiz um comentário simpático genérico - algo como "foda, hein?" - enquanto me lembrava das tardes em que estive próximo de emular as tentativas de suicídio de didi mocó na minha estação de trabalho por não aguentar mais ouvi-lo assobiando a mesma música por quatro horas. coisas tipo, sei lá, "no more 'i love you's", "have you ever seen the rain?", "fixação". só pérola.
saí do banheiro um pouco chateado com a incompetência do paizão (se é pra traumatizar, que faça direito), mas com boas idéias para a criação do rebento que planejo nunca ter.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
só no enobrecimento
já tentou abrir um cofre? é a coisa mais difícil do mundo. no meu primeiro dia na firma, recebi uma folha com as instruções - "gire no sentido horário até chegar ao 37", etc. - e fui apresentado ao desgastado retângulo de metal pintado de verde, que certamente já compunha o cenário havia algum tempo. fui informado sobre as pessoas a quem poderia recorrer em caso de dificuldades e me foi sugerida a dedicação de alguns momentos do dia à operacionalização da tranca. "quão complicado pode ser?", pensei, enquanto direcionava a maior fatia do meu interesse a outros afazeres.
algum tempo depois, estava ajoelhado na frente da caixa metálica, questionando minha inteligência e sanidade, estupefato pelo repetido fracasso numa tarefa que aparentemente pouco exigia além de um nível mínimo de coordenação motora, e conhecimento básico sobre os números naturais até cem e a trajetória comumente percorrida pelos ponteiros de um relógio. tomado pela frustração, invoquei um dos contatos que poderia me mostrar o caminho - cidadão esse que, sem abandonar a ligação telefônica que completava e com a concentração reservada para abrir uma torneira, destrancou o cofre, abriu e fechou rapidamente a porta umas três vezes, dando a entender que não aceitaria novo desperdício tão besta do seu tempo, e cerrou novamente o móvel, sem permitir minha análise do seu conteúdo. em resumo, apenas piorou a situação.
abandonei a estação de trabalho, as janelas do chat, os jogos em flash, a leitura de manuais reservada aos iniciantes. sentei-me ao lado do meu novo nêmesis e, repleto de determinação, dediquei-me a decifrar aquele segredo. não almocei. não falei com ninguém. desconsiderei chamados. apenas com meus giros equivocados, o disco percorreu distância suficiente para me levar a qualquer lugar e obter seja lá o que estava escondido naquele contêiner miserável. perdi meu compromisso com a primeira moça nesta cidade que mostrou genuíno interesse em uma futura troca de fluidos, e tive a certeza da correção da minha estratégia quando ouvi o ruído seco do destravamento da fechadura. consciente do sucesso, fiquei alguns segundos parado, de olhos fechados, saboreando a vitória, até que decidi escancarar a porta e avaliar o meu tesouro, que aqui listo em sua completude:
- três canetas esferográficas, uma delas desprovida de tampa;
- uma cópia da constituição federal de 1988;
- o manual de uma câmera fotográfica yashica; e
- uma folha de papel amarelada, com claras provas da ação do tempo, cuidadosamente dobrada em quatro, com a mensagem "por favor, me abra!" redigida em bonita caligrafia, provavelmente masculina.
mirei a folha, lembrei que já eram quase nove horas da noite e decidi desdobrá-la, despreocupado com uma possível repreensão. feito isso, deparei-me com um pênis medindo algo em torno de 25 centímetros, devidamente acompanhado de um par de testículos e uma leve pelugem. levava um chapéu coco levemente inclinado na ponta da glande, e um sorriso aberto e sincero. um balão trazia uma simples, embora simpática, saudação: "olá!!!". muito bom o desenho, devo dizer. não conseguiria fazer algo semelhante.
retornei a folha à sua forma original e a coloquei tão próxima do local onde a encontrei quanto pude. desliguei meu computador, recolhi meus pertences e ouvi a nítida risada de umas cinco pessoas, algo um pouco estranho, posto que não havia ninguém ali já havia algum tempo. ri de volta - necessário, ou torna-se impossível viver - e, em breve reflexão, concluí que aquele não havia sido um dos piores dias da minha trajetória profissional. nem perto disso.
algum tempo depois, estava ajoelhado na frente da caixa metálica, questionando minha inteligência e sanidade, estupefato pelo repetido fracasso numa tarefa que aparentemente pouco exigia além de um nível mínimo de coordenação motora, e conhecimento básico sobre os números naturais até cem e a trajetória comumente percorrida pelos ponteiros de um relógio. tomado pela frustração, invoquei um dos contatos que poderia me mostrar o caminho - cidadão esse que, sem abandonar a ligação telefônica que completava e com a concentração reservada para abrir uma torneira, destrancou o cofre, abriu e fechou rapidamente a porta umas três vezes, dando a entender que não aceitaria novo desperdício tão besta do seu tempo, e cerrou novamente o móvel, sem permitir minha análise do seu conteúdo. em resumo, apenas piorou a situação.
abandonei a estação de trabalho, as janelas do chat, os jogos em flash, a leitura de manuais reservada aos iniciantes. sentei-me ao lado do meu novo nêmesis e, repleto de determinação, dediquei-me a decifrar aquele segredo. não almocei. não falei com ninguém. desconsiderei chamados. apenas com meus giros equivocados, o disco percorreu distância suficiente para me levar a qualquer lugar e obter seja lá o que estava escondido naquele contêiner miserável. perdi meu compromisso com a primeira moça nesta cidade que mostrou genuíno interesse em uma futura troca de fluidos, e tive a certeza da correção da minha estratégia quando ouvi o ruído seco do destravamento da fechadura. consciente do sucesso, fiquei alguns segundos parado, de olhos fechados, saboreando a vitória, até que decidi escancarar a porta e avaliar o meu tesouro, que aqui listo em sua completude:
- três canetas esferográficas, uma delas desprovida de tampa;
- uma cópia da constituição federal de 1988;
- o manual de uma câmera fotográfica yashica; e
- uma folha de papel amarelada, com claras provas da ação do tempo, cuidadosamente dobrada em quatro, com a mensagem "por favor, me abra!" redigida em bonita caligrafia, provavelmente masculina.
mirei a folha, lembrei que já eram quase nove horas da noite e decidi desdobrá-la, despreocupado com uma possível repreensão. feito isso, deparei-me com um pênis medindo algo em torno de 25 centímetros, devidamente acompanhado de um par de testículos e uma leve pelugem. levava um chapéu coco levemente inclinado na ponta da glande, e um sorriso aberto e sincero. um balão trazia uma simples, embora simpática, saudação: "olá!!!". muito bom o desenho, devo dizer. não conseguiria fazer algo semelhante.
retornei a folha à sua forma original e a coloquei tão próxima do local onde a encontrei quanto pude. desliguei meu computador, recolhi meus pertences e ouvi a nítida risada de umas cinco pessoas, algo um pouco estranho, posto que não havia ninguém ali já havia algum tempo. ri de volta - necessário, ou torna-se impossível viver - e, em breve reflexão, concluí que aquele não havia sido um dos piores dias da minha trajetória profissional. nem perto disso.
terça-feira, 29 de março de 2011
today my heart swings
apareceu em 2002, o interpol, naquele comboio de bandas novaiorquinas que se preocupavam excessivamente com o visual e haviam chegado para salvar o rock, patrocinados pelas principais revistas especializadas - tempos loucos em que se lia revistas. ouvi o "turn on the bright lights" pré-disposto a desgostar das faixas, e apenas "pda" - realmente uma canção espetacular - conseguiu transpor o filtro da minha má vontade. tenho o costume de me alinhar com os underdogs e perdedores, não com os grupos de ternos caros, bigodes irônicos e ovação crítica unânime.
hoje, passado o hype e lançados discos merecedores de notas medíocres da pitchfork, tenho escutado bastante interpol. senti-me confortável para ouvir e perceber que, apesar de tudo que circunda a banda, uma coisa é irrefutável: são quatro músicos bastante talentosos, com ótimas referências e algumas músicas muito, muito boas. paul banks, o vocalista, teve isso a dizer após a saída do baixista carlos dengler - o do bigode - no ano passado: "i'm the kind of person where, if i think someone is a genius, i'll put up with tonnes of crap from them. if you're in the presence of someone who you think is a genius then you think, 'i'd rather deal with them being an a-hole than not.' it's a more rare treat, a more rare treasure, their ability. carlos is that."
parece-me uma excelente estratégia.
não apenas forneceram alguns dos meus hits deste ano (não paro de ouvir "mammoth", "who do you think" e "say hello to the angels"), mas também contribuíram com um valoroso insight para o meu entendimento das cousas da vida, principalmente no departamento em que decerto eu falho da maneira mais violenta. grande interpol.
hoje, passado o hype e lançados discos merecedores de notas medíocres da pitchfork, tenho escutado bastante interpol. senti-me confortável para ouvir e perceber que, apesar de tudo que circunda a banda, uma coisa é irrefutável: são quatro músicos bastante talentosos, com ótimas referências e algumas músicas muito, muito boas. paul banks, o vocalista, teve isso a dizer após a saída do baixista carlos dengler - o do bigode - no ano passado: "i'm the kind of person where, if i think someone is a genius, i'll put up with tonnes of crap from them. if you're in the presence of someone who you think is a genius then you think, 'i'd rather deal with them being an a-hole than not.' it's a more rare treat, a more rare treasure, their ability. carlos is that."
parece-me uma excelente estratégia.
não apenas forneceram alguns dos meus hits deste ano (não paro de ouvir "mammoth", "who do you think" e "say hello to the angels"), mas também contribuíram com um valoroso insight para o meu entendimento das cousas da vida, principalmente no departamento em que decerto eu falho da maneira mais violenta. grande interpol.
Assinar:
Postagens (Atom)